Proibido sentar nas escadas

E enquanto a senhora sentada ao meu lado abanava a cabeça em reprovação, ia também se abanando com um papel de publicidade a internet banda larga que distribuiam à entrada. Eu continuo a ler, e ela diz para uma outra senhora que se tivesse trazido um livro também estaria entretida. E continua dizendo que é uma indignação esperar tantas horas, que é inadmissível, que ela é uma pessoa muito doente e está ali antes das dez da manhã.
E aí eu fecho o livro, ela começa a falar olhando também para mim, esperando que eu responda qualquer coisa, ou diga um pois é ou acene com a cabeça. Mas eu levanto-me, sento-me nas escadas, abro novamente o livro e continuo na parte em que o narrador começa a descrever a cidade, mas de repente dou com o meu olhar nos pés do senhor da empresa de segurança privada, que me diz que não posso estar sentada nas escadas. Aponta-me a sinalética. Proibido sentar nas escadas. Motivos de segurança, diz ele, podem tropeçar em mim. Levanto-me, circulo, passeio-me pelos lados da segurança social, serviço estrangeiros e fronteiras, lisboa gás. Avisto ao longe a mãe de um doente que em tempos cuidei. Ela nem se deve lembrar de mim, as pessoas ficam diferentes, mas ela está igual. Sentava-se ao lado da cama do filho e embalava-o, apesar de ele ser já adulto. Crescido, portanto. E ficava lá até ao último minuto da hora de visita. Ela está igual.

Eu sou uma daquelas pessoas que responde aos inquéritos telefónicos de estudos de mercado. Já respondi sobre bancos, seguros de saúde, pastas dos dentes e até rádios. :)

o vento

Vou ao multibanco levantar vinte euros. Oiço música no mp3. Peço o movimento da conta. Está vento. O papel do multibanco voa-me das mãos, para o meio da estrada. Corro atrás do papel. Um carro vem na estrada, quase me atropela porque não o vejo. Trava a fundo. O homem grita e chama-me um nome. Atravesso a estrada. O papel voa à minha frente. Continuo a correr atrás dele. Tropeço na calçada. Caio. Olho o meu joelho. Um fio de sangue suja as calças de ganga. A bateria do mp3 acaba.

Sugestão Dia da Mãe

Mimos para as mães, tias e avós portuguesas na Artlusa.

Filosofia de supermercado

No supermercado uma senhora viu-me escolher umas tangerinas e perguntou-me se achava que eram boas. Como hei-de saber?, penso eu, se ainda não as provei.
Pois, diz ela, o problema é que nunca sabemos. Elas parecem bonitas mas depois provamos e sabem a plástico.
Concluo eu - não é como tudo na vida?



Regresso de comboio a casa. Fui a Lisboa renovar o bilhete de identidade e levantar um exame ao hospital. Ao almoço o empregado de mesa rondava os clientes, mãos atrás das costas, que descruzava quando levantava o prato e perguntava, e para sobremesa?
Na mesa contígua, um senhor sorve da colher a sopa de legumes. Peço a conta. Desço a rua e apanho o metro.
Na outra carruagem, à distância de um vidro, um rapaz sussurra ao ouvido de uma rapariga, o que sussurará ele?, ela segura-se a ele pelas presilhas das calças. Entro numa loja, uma senhora pergunta-me se a camisola que traz na mão é do tamanho L, porque ela costuma comprar o L, mas com estes óculos não vê nada bem, obrigado menina.
De volta ao comboio. Parece que são as pessoas que se estão a mover e não o comboio a andar. Parece que quem corre são as pessoas na gare, as estradas, as árvores, as casas, os túneis, os graffitis, benfica crew, eixo norte-sul, segunda circular. Gare de novo, publicidade a um creme auto-bronzeador, só um bronzeado uniforme pode ser bonito. O outro comboio cruza-se em sentido contrário, ficando os passageiros de ambos os comboios a olharem-se mutuamente. Que será que pensam as pessoas?

Queremos ir à lua mas voltar

Lembra leite morno com suchard express, pão torrado barrado com manteiga dos dois lados, dias de sol a brincar no quintal, jogar ao elástico, à macaca, saltar à corda com um só pé, fazer castelos de areia na praia com copos de iogurte.
E nada mais. Puré de batata com peixe espada grelhado e um fio de manteiga derretida. Panamás, marcadores molin, lápis viarco, cadernos de música com colcheias perdidas, o som dos xilofones, hora de recreio, cambalhotas na areia, amantes de escorregas, baloiçar até à vertigem.

Vale a pena ver
castelos no mar alto
Vale a pena dar o salto
pra dentro do barco
rumo à maravilha
e pé ante pé desembarcar na ilha
Pássaros com cores que nunca vi
que o arco-íris queria para si
eu vi
o que quis ver afinal

É tão bom uma amizade assim
Ai, faz tão bem saber com quem contar
Eu quero ir ver quem me quer assim
É bom pra mim e é bom pra quem tão bem me quer

Vale a pena ver
o mundo aqui do alto
vale a pena dar o salto
Daqui vê-se tudo
às mil maravilhas
na terra as montanhas e no mar as ilhas
Queremos ir à lua mas voltar
convém dar a curva
sem se derrapar
na avenida do luar

É tão bom de Sérgio Godinho